RESISTÊNCIA AO GRETAMENTO DE ESMALTES CERÂMICOS

Os materiais cerâmicos, via de regra, não apresentam alta resistência mecânica quando submetidos a esforços de tração. Geralmente se considera que a resistência à compressão dos produtos cerâmicos é cerca de dez vezes superior à resistência à tração. Essa particularidade se torna muito relevante na fabricação de produtos cerâmicos esmaltados, pois esforços de tração podem se desenvolver na camada de esmalte em decorrência de uma combinação de diversos fatores. Quando os esforços de tração a que os esmaltes estão submetidos são superiores à sua resistência mecânica, ocorre um defeito de fabricação denominado gretamento, constituído por um conjunto de trincas de dimensões capilares que se manifestam na camada de esmalte.

Dentre os principais fatores responsáveis pelo gretamento dos esmaltes cerâmicos, estão a deficiência no acordo dilatométrico entre a massa e o esmalte; e a expansão por umidade da massa cerâmica. No caso dos produtos que recebem uma camada de engobe, a dilatação térmica e a retração de queima do engobe também são variáveis importantes, que podem afetar a resistência ao gretamento do produto. O mesmo vale para aplicações superficiais como granilhas e protetivas, que exercem influência nas tensões desenvolvidas e suportadas pelo conjunto.

Estes conceitos são aplicados a todos os produtos cerâmicos esmaltados, como revestimentos, porcelanatos, louça de mesa, sanitários, isoladores elétricos, etc. Entretanto, o que os diferencia de forma muito expressiva é a expansão por umidade (EPU), que geralmente é mais elevada nos produtos de maior porosidade, como os revestimentos cerâmicos BIIb e as louças de mesa produzidas a partir de massas conhecidas como faianças. Nos porcelanatos, porcelanas, isoladores e louças sanitárias tradicionais, as massas são mais vitrificadas e os produtos obtidos costumam apresentar expansões por umidade reduzidas. Entretanto, a EPU nunca deve ser negligenciada, pois ocorre em todos os produtos, mesmo que em magnitude reduzida.

Em consequência das diferenças de expansão por umidade, as precauções que devem ser tomadas na fabricação de cada produto com relação ao acordo dilatométrico entre as camadas constituintes devem ser diferentes. Quanto maior a EPU de um produto cerâmico, o acordo dilatométrico deve prever maior compressão na camada de esmalte, pois a tendência é que esta condição se altere ao longo do tempo, após a fabricação.

As tensões de acoplamento podem ser previstas a partir de análises de dilatação térmica e retração de queima da massa, engobe e esmaltes empregados na fabricação dos produtos cerâmicos. Análises mais completas também podem ser realizadas em plataformas óticas desenvolvidas especialmente para essa finalidade. As medidas de EPU, por sua vez, devem ser realizadas por instrumentos de alta precisão, visto que as magnitudes das variações dimensionais encontradas nestas análises são muito reduzidas.

Ainda que se trate de um fenômeno conhecido há muito anos, infelizmente ainda hoje essa patologia ocorre com certa frequência nos produtos cerâmicos. Nesse sentido, buscar conhecimento sobre o tema para atuar de forma assertiva na fabricação dos produtos cerâmicos e controlar a qualidade dos insumos e do produto fabricado continuam sendo as maneiras mais eficazes para evitar patologias desta natureza.